Coleção Reflexos - por Benedito Costa Neto
Há um mistério revelado e não revelado a um só tempo no trabalho de Mariana Canet. Não revelado porque não se exibe abertamente a origem do objeto fotografado; revelado porque a imagem está aí, aos olhos do espectador, pronta para ser apreciada e também avaliada, investigada. É bem-vindo à artista o pensamento de como o espectador interpreta esses trabalhos, assim como é bem-vinda a liberdade que ele tem em fazer isso - essas leituras possíveis com que a arte se torna mais instigante, porque justamente aberta a um território do possível.
Isso não é exatamente um jogo, mas cai muito bem tanto para a técnica utilizada nesses trabalhos quanto para o discurso da artista-fotógrafa, em que a questão da reflexão tem presença fundamental.
O verbo "refletir" em português tem pelo menos duas acepções básicas: refletir algo e refletir sobre algo. Igualmente, o substantivo "reflexo" tem regência múltipla: reflexo de algo, reflexo a algo. Curiosamente, é como se verbo e substantivo (ambos com a mesma raiz) vivessem eles mesmos a condição ambígua do reflexo: 1. uma superfície que reflete a outra, por um jogo de luz, ou pela condição mesma da luz, pois o reflexo não ocorre no mundo das sombras; 2. uma superfície que reflete sobre a outra, que analisa a outra, que pode pensar a outra ou pensar sobre a outra, sobreposta a esta outra.
Este jogo verbal - e imagético - encontra respaldo nesses trabalhos de Mariana Canet. Com algumas complexidades. Não bastasse a existência de per si do reflexo (natural ou pensado), a fotografia capta um instante do reflexo. Faz uma leitura dele, edita-o, capta o reflexo numa condição de, ao mesmo tempo, efemeridade e extensão de sua existência.
Tanto a questão do reflexo e da reflexão surgem nesses trabalhos - daí o nome geral para as duas séries. Muito já foi falado sobre os espelhos e seus reflexos: uma antiga tradição mística afirma que são malditos, uma vez que multiplicam os seres. Os espelhos, sim, multiplicam os seres, mas curiosamente de forma invertida (ou alterada).
Quem se admira no espelho olha para um autorretrato. O espelho nos dá uma falsa Ideia do que somos porque o que vemos é uma imagem do exterior e da vontade da luz, das possibilidades da luz, e das possibilidades da superfície. Povos antigos utilizaram vidro vulcânico como espelho ou metal polido e hoje temos incríveis possibilidades de um reflexo muito nítido, com alta tecnologia, que "não deforma" o que é refletido. Mas aqui, nesses trabalhos, não há o temor do turvo, da distorção, tampouco da multiplicação.
Poderíamos pensar numa história do reflexo, de como os povos foram se vendo ao longo dos tempos, a si mesmos e aos demais objetos, foram se
localizando como pessoas e como seres de uma comunidade, vendo-se num espelho, inclusive utilizando o espelho como uma ferramenta para a representação (na pintura, por exemplo). Mas aqui é a distorção que ganha papel central, fundamentalmente no elemento água. Valeria lembrar que a natureza tem papel fundamental para a apreciação desses trabalhos.
O reflexo, por vezes, é turvo. Então, aqui, não se trata de um espelho tecnologicamente perfeito. O obietivo não é captar um instante ideal ou um instante inusitado.
A despeito de a técnica ser a fotografia, muitos dirão que os trabalhos lembram pinturas abstratas, por vezes impressionistas. No entanto, não ocorreu uma busca nesse sentido.
Os trabalhos de Mariana Canet são como as citações: retiram de um lugar e colocam no outro um enunciado, uma forma, um modo, uma estrutura, inflada de novos sentidos. Assim, essas imagens devem ser vistas.
O reflexo por si, o reflexo captado, o reflexo montado na exposição, o reflexo do espectador: da natureza, o olhar do fotógrafo, o fotografado, a montagem num espaço segundo, e por sua vez o espectador - o caminho desses reflexos é longo e complexo. Voltamos à acepção primitiva da palavra: re+flectere = redobrar, que também carrega a ideia de "desviar". O trabalho de Mariana Canet é o resultado
de múltiplos e fantásticos desvios.Benedito Costa Neto
Professor