Natureza

     Na oportunidade que a talentosa Mariana Canet edita um terceiro álbum reunindo seus trabalhos fotográficos mais recentes se impõe mais uma vez algumas reflexões a respeito da condição de obra de arte hoje atribuída, não mais com restrições, à fotografia. Fruto de pesquisas e estudos históricos de a muito consagrados sabe-se que em meados do século XIX, mais precisamente no ano de 1826 pela primeira vez se obteve a impressão em papel de uma imagem a partir da natureza obtida com o uso de recursos químicos e Óticos. Mesmo que considerandocomo precários os resultados  daquelas primeiras experimentações a nova invenção em pouco tempo evoluiu e se transformou em um dos mais importantes componentes do dia a dia da humanidade.
     O abalo que causou no mundo das artes ao se desenvolver e ganhar qualidade é óbvio e tem sido motivo de exaustivas polêmicas em que se coloca em questão quando e em que circunstâncias a fotografia ganha o status de obra de arte. Muitos artistas vem usando de maneiras as mais diversas a fotografia almejando que ela transcenda a condição de apenas servir para registrar e documentar a realidade.
     Mariana Canet está entre esses artistas e desde que estou acompanhando o seu trabalho percebo uma constante evolução. Viveu desde pequena muito próxima da natureza até pelas atividades de sua família e mesmo quando em viagens de lazer optou sempre por lugares de natureza agreste. Foi nessas locações que seu olhar atento e afinado foi encontrar a matéria prima para sua expressão artística.
     Digo matéria prima porque ela não se conforma apenas com o primeiro resultado dos cliques e vai muito além retirando de fragmentos das fotografias, em princípio naturalistas, o corte preciso que as transforma em obras de arte. Pedras desgastadas pelo tempo, rasgadas, cortadas, partidas expondo suas entranhas com sulcos e reentrâncias insuspeitas ou troncos decepados, feridos como também cascas de árvores castigada pelo tempo e pelas forças da natureza nada escapa a sua lente macro e mesmo um simples tufo de capim, revolto pelo vento, se transforma e renasce, ainda como fotografia, muito embora tenha sido despojada de sua aparência inicial e elevada a condição inconteste de obra de arte.
     A intenção de Mariana Canet e seu olhar jamais escondem a intenção de fazer uma interpretação abstrata da natureza e se afastar de uma simples narrativa naturalista. Aí reside ao meu ver a condição indispensável que diferencia um trabalho fotográfico, por melhor que seja, de uma obra de arte. Neste álbum está fortemente representada a intenção da artista em percorrer esse caminho qualquer que sejam os obstáculos a ultrapassar e estou certo de seu êxito.

Fernando Velloso

Artista e crítico de arte