A natureza encantada de Mariana Canet - A delicadeza e o espetáculo
Um novo livro-álbum, “Natureza”, é apresentado por Mariana Canet. Ela nos propõe também contemplar o seu olhar de artista-fotógrafa no seu empenho de mostrar a ambiguidade que existe entre arte e natureza. Anos após anos ela vem perseguindo o seu tema nas relações técnicas da macro e da microfotografia, perscrutando a natureza.
Depois do encontro da arte com a natureza nos primórdios da história, ambas mantêm um elo indissociável, de múltiplas possibilidades, submetidas a uma natureza exterior ou interior do homem, sempre produto da imaginação e que para Mariana parecem querer buscar um mundo suprassensível para poder transmutar as formas. A história da arte moderna nos conduziu a um novo aprendizado do olhar.
A sua fotografia congela um momento preciso de percepção da natureza, é um segundo, é um instante no tempo, na sequência o objeto não estará mais lá, pois a sua objetiva é esta potente auxiliar em captar uma natureza que os olhos nus não percebem.
O filósofo alemão Immanuel Kant já havia advertido sobre a comoção que a natureza provoca quando pressentimos o simbolismo das suas cores e formas, uma forma de sedução que nos faz acreditar que a própria natureza é o artista, para ele “o sublime comove, o belo encanta”. A natureza é sublime, inspira o artista e faz eco na sua alma de apaixonado para produzir a outra beleza, o poético.
Foi no ano de 2019 que Mariana Canet realizou uma exposição com o pintor Fernando Velloso, um diálogo entre fotografia e pintura. Mais do que isso, à partir de lá começou um verdadeiro diálogo entre eles e assistido por nós, Dico Kremer, fotógrafo, e eu, como crítico de arte. É o resultado de todo este envolvimento, conversas, discussões entre os quatro o que aparece neste trabalho.
A fotografia segmenta um contínuo que a pintura acreditava poder representar. O olhar fotográfico é um corte que se faz da natureza ou do objeto nesse contínuo, não é analogia, logo não é verdadeira, é vestígio, é criação, é construção.
A obra pictórica de Fernando Velloso é abstrata, mas nela temos o sentimento de que a natureza nunca está muito afastada, desta conversa plástica entre os dois, notamos que o trabalho da Mariana, que sempre foi integrado com a Natureza, agora busca também esta linguagem abstrata com a certeza do que pretende, com a consciência que a câmara fotográfica altera a visão das coisas, que ela extrai as imagens do seu contexto e cria uma nova maneira de ver.
Neste livro ela nos ensina a ver através de detalhes, de cicatrizes, de fendas, de fragmentos, de traços e vestígios, o imenso repertório que é também um reservatório de poesia visual: um olhar poético da natureza nos seus reinos vegetal e mineral.
A primeira parte, “O Silêncio da Natureza” trata do Reino Vegetal, a delicadeza. Todo artista é suscetível a uma espécie de linguagem falada pela
natureza, uma linguagem confusa centrada no conteúdo, sem palavras, mas com ideias que provocam alegrias e emoções. Há um silêncio ao ver as ranhuras, as fissuras, as fendas ou os estriados das folhagens, dos troncos, dos galhos, das cascas retorcidas: “a natureza como disciplina do pensamento”, disse Pierre Restany.
São grafismos, caligrafias, hieróglifos, grafites, manchas, cada vez mais difíceis de serem decifrados. No entanto, este universo microscópico ou macroscópico nos revela um mundo oculto e fascinante.
Nada é mais abstrato do que o silêncio, o vazio, o nada. Necessitamos escutar este silêncio, escutar a sua linguagem que é tanto sonora quanto visual. No silêncio da natureza a razão da vida, da subsistência do mundo. É impossível esvaziar a realidade exterior, o real sempre retorna, mesmo na abstração, ou como na arte abstrata, assistimos o retorno do mundo exterior até pelas suas texturas, as massas coloridas ou pelos traçados das formas.
O saber escolher na natureza, o detalhe, o conjunto, o grande e o pequeno, a cor, a luz e a sombra, um vegetal fraturado e arrancado de seu contexto, deixando visíveis suas entranhas, suas veias e seu sangue. É um aprendizado, uma reverência, quase um êxtase. Ensina-nos a ver pedaços e instante dessa natureza, reais ou transfigurados, sejam eles realizados pelo tempo ou pela ação humana.
Mariana fixa a sua objetiva em composições inusitadas ou mesmo estranhas, procurando um caminho plástico que vai desde o impressionismo até a abstração. Em um segundo momento, na segunda parte do livro, “A Força da Natureza”, é o Reino Mineral, o espetáculo: contemplando as aparências naturais ela nos mostra ser a única maneira concebível da beleza. Pedaços e instantes da natureza, reais
ou transformados.
Fantásticos fragmentos de rochas vulcânicas, maciças e das areias finas que tem o poder de encantar pela sua força e potência. Sentimos que há uma harmonia preestabelecida entre o gosto humano e a natureza com todo o seu vigor e com todas as suas metamorfoses possíveis. Novamente ver as ranhuras, as fissuras, as quebras do material, o liso e o estriado dos seus detalhes, “estados momentos de sensibilidade”, viagem do olhar. Rupturas pela energia, pela rapidez, pelo tempo, que exalta a intensidade do seu poder. Para o sociólogo Roger Caillois, as pedras, as rochas, parecem
miraculosamente subtraídas dos mecanismos da natureza, escapam ao mundo da banalidade e apresentam aquilo que elas têm de “raro”, de “estranho”, de “bizarro”, de “insólito”, mas também de “fantástico” que conduzem o artista a sonhar e fazer poesia.
A imagem de uma cadeia de montanhas, de vestígios rochosos, de fendas profundas, são imagens que recuperam a devastadora potência da natureza, entre desolação e espetáculo diante do qual devemos nos inclinar, mas que também nos dão forças para aguçar o olhar e elevar a nossa imaginação.
Esta transcendência, nostalgia humana de uma unidade primordial, necessária para a criação artística, para o encontro com a beleza, impele Mariana Canet a partilhar sua paixão e nos ensinar a ver, a olhar com profundidade, pensar a natureza e, penetrando no seu mistério, nos convida com inegável emoção a encontrar o seu encantamento, a “natureza” da própria natureza.Fernando A. F. Bini
Crítico de Arte