Metamorfose

     O poeta Publius Ovidius Naso, conhecido como Ovídio (n. 43AC em Sulmona, Itália – m. 17DC em Constança, Romênia), publicou seu “Metamorphōseōn libri por volta do ano 8 da nossa era. É uma coleção de estórias em versos hexâmetros que descrevem as transformações pelas quais passaram os mitos gregos desde a criação do mundo até a sua época. Transformações, transfigurações, metamorfoses.
     A metamorfose, a transformação, fazem parte da vida. Tudo se transforma ou é transformado. E, antes da enunciação do princípio de Lavoisier, “...porque nada se cria, nem nas criações da arte, nem daquelas da natureza, e pode-se colocar como princípio que, em toda a operação, há uma igual quantidade de matéria antes e depois da operação; que a qualidade e a quantidade dos princípios é a mesma, e que há somente mudanças,  modificações.”, no tempo de Platão, em 400 AC,  já se fazia a transformação ou reciclagem de materiais usados. Naquela época, provavelmente, pela escassez. Hoje é pela abundância.
     A nossa época, principalmente no último século, teve um desenvolvimento de tecnologias, comunicação e integração jamais imaginado. Em todos os campos do conhecimento técnico e científico. Penso eu que no campo das ciências humanas, das humanidades, regredimos enormemente. Beiramos a idade da pedra polida. Mas esta é outra história.
     Com o aumento da população e por isso o do aumento da oferta de bens materiais e seu consumo, a terra foi inundada por dejetos de todos os tipos. Uns menos outros mais letais para o planeta e seus habitantes. E, por isso, muitos se conscientizaram que era preciso tomar algumas providências.  Hoje, em quase todos os países, materiais são reciclados para futura utilização.
     E, além das empresas, indústrias, uma pequena mas influente classe de pessoas, com seu olhar criador e inovador, transforma  os materiais. São os artistas. Aqueles seres que olham o mundo de uma forma diferente. Em que a reciclagem pode trazer um prazer estético, uma informação nova. Em que a transformação dos materiais cria novas plasticidades, novas formas, novos objetos. E seu alcance, mesmo que pequeno, atinge um duplo objetivo: a reciclagem em si, neste caso como forma artística, e a conscientização das pessoas. 
     Carmen Lucia Solheid Kremer há alguns anos olha com olhos de ver os materiais a que pode dar uma reutilização. Depois de uma série de ensaios com diferentes materiais optou por texturas com a reciclagem de papel. É o que os franceses chamam de papier mâché. Não é uma técnica nova. Já os chineses e os antigos egípcios, persas e indianos utilizaram a técnica com papiro e outros materiais.
     O que mais chamou a atenção da artista, que prefere ser chamada de artesã, foi a possiblidade de criar uma série de texturas combinadas com cores. O que a ajudou a manipular o material, principalmente na questão relativa as cores foi o seu conhecimento do programa Photoshop. Este aprendizado foi começado ainda em Portugal onde morou nos anos 1990 do século passado. Em Lisboa cursou a Escola Flag, ainda nos idos do Photoshop 4. Já no Brasil frequentou workshops com o professor Alexander Keese e teve aulas com o profissional Marcos Eduardo Silva. Teve, também, aulas de desenho com o pintor paranaense Paulo Bastos Dias.
     As amostras em seu atelier despertou a curiosidade da fotógrafa e artista Mariana Canet. A parceria foi feita. Mariana já tinha exposto no Museu Oscar Niemeyer – MON – um trabalho fotográfico com o título de “Reflexos”. Junto com a mostra foi publicado um livro. Com seu novo trabalho, não figurativo, a que deu o título de “Abstrato” ela procurava uma forma de sair do plano bidimensional da ampliação fotográfica. Com as texturas criadas pela Carmen Lucia a profundidade foi incorporada a obra. A escolha de cada fotografia era precedida de uma análise sobre que tipo de textura, a escolha do cromatismo, o tamanho e a forma. Atrás ou na frente da fotografia a textura ou “fundo” complementa a informação fotográfica e gera uma terceira dimensão, a profundidade.  
     No começo do texto cito o poeta Ovídio. Agora o Metamorfose do livro “Metaformose” do poeta Paulo Leminski.

Dico Kremer

Fotógrafo