A escolha do olhar

     Muitos eruditos quando falam sobre a arte moderna, sobre a arte abstrata de um modo geral, creditam o seu aparecimento ao da invenção da fotografia. Talvez tenham toda a razão. Porém fica uma pequena, mas não desprezível, dúvida no ar. Que é o desejo quase incontrolável dos artistas de fazer algo novo, diferente. De ver as coisas sob outro ponto de vista. “Make it new” dizia Ezra Pound. E, para o poeta, este novo não era desprezar o que havia de bom, de belo, de criativo, de eterno feito por artistas desde que estes começaram a criar uma obra, segundo a sua sensibilidade, para se comunicar com seus semelhantes. Para mostrar a sua própria visão.
     A famosa pintura rupestre de um bisão na gruta de Lascaux, feita por um nosso ancestral há uns 17 mil anos pode, como querem muitos, ter um significado religioso ou mágico. Funcionaria como um amuleto de boa sorte para futuras caçadas, comida para a tribo. Mas, suponho, poderia ser um sonho do artista. Ou a simples vontade de desenhar o animal com formas puras, não realistas, apenas a visão que ele tinha do animal. Sua visão única, pessoal, intransferível.
     As primeiras fotografias eram tiradas de cenas ao alcance imediato dos seus descobridores. Uma vista da janela de Joseph Nicéphore Niépce, outra da janela de Louis Daguerre onde, por um acaso, aparece a primeira pessoa a ser fotografada. Era um transeunte parado tendo seus sapatos sendo engraxados. Depois paisagens, cidades, cenas do cotidiano, retratos de pessoas, cenas aéreas feitas por Nadar em um balão. Enfim, a documentação de tudo aquilo percebido pela visão do fotografo. Arriscaria a dizer uma visão do macro, da chamada realidade objetiva.
     Alguns fotógrafos começaram a pensar, além da visão macro de informação, de registro, numa visão micro, a dos detalhes, das formas, dos volumes, das cores, das texturas. E, além da câmera, também, capturas de imagens na câmara escura, com o ampliador, com o papel emulsionado, com as químicas, com os filtros, com as máscaras.
     E aqui poderíamos pensar que se houve influência da fotografia sobre a pintura, neste caso a pintura poderia ter influenciado os fotógrafos com os trabalhos dos impressionistas, a partir de 1903 com o Salon d’Automne. E depois os outros movimentos da pintura, o pós-impressionismo, o dadaísmo, o surrealismo, o construtivismo, o vorticismo. Entre os pioneiros da fotografia abstrata temos nomes como Man Ray e Alexandre Rodchenko.
     Hoje em dia a fotografia com motivo abstrato é aceita como uma obra que utiliza a câmera fotográfica – mas não só ela - para comunicar uma visão do artista com a informação estética. O que é fotografado é aquilo que existe realmente, por um instante de tempo muito pequeno, uns avos de segundo registrado pela câmera.
     No caso de fotografia analógica, com filme, a cores ou P&B, há ainda o poderoso auxílio do laboratório: o corte feito no ampliador, as químicas, os filtros, os diversos tipos de papel ou suporte, as intervenções com objetos ou qualquer outro meio que o artista queira usar. Na fotografia digital, além dos inúmeros recursos que existem nas atuais câmeras, existe o suporte de programas como o Photoshop ou o Lightroom. 

     Mariana Canet é uma artista fotógrafa. Ou uma fotógrafa artista. A câmera fotográfica é a sua principal ferramenta de trabalho. Mas sempre está inquieta atrás de outros meios e materiais que valorizem suas fotos, seu trabalho como um todo.  Ela olha e vê e, a partir daí, escolhe o enquadramento que isola o motivo da parte maior da realidade circundante. Com sua visão treinada é capaz de perceber a disposição casual de objetos. Separa uma parte de seu conjunto. Escolhe a forma em vez da identidade ou da função. O objetiva, não sendo macro, que se aproxima do detalhe do objeto, valoriza seu grafismo em combinação com a luz ou algo que interfira visualmente. Com a objetiva macro, com ou sem a ajuda de anéis de aproximação, o enquadramento fixa uma pequena parte do objeto, valorizando sua cor, e/ou textura, e/ou forma, e/ou volume.
     A fotografia abstrata tem seu estilo livre, não se prendendo a nenhuma norma ou lei. Ou melhor, se prende a uma emoção estética. O valor estético está no enquadramento, no equilíbrio das formas, na valorização do visual.
     O que importa nisso tudo é o “make it well”. Fazer bem o trabalho a que se propõe. Um trabalho bem pensado, feito com elegância, que traga uma informação visual nova e bela, esteticamente criativa e sensível. 
     E com as fotos deste livro acredito que Mariana tenha atingido o fim a que se propôs. É a escolha de seu olhar.

Dico Kremer

Fotógrafo