As abstrações fotográficas de Mariana Canet
Quando a fotografia foi inventada, no século XIX, ela desestabilizou a pintura da época, após um período de oposições - arte ou produção mecânica? - em seguida ela auxiliaria a pintura a romper com a barreira da representação e começava a adquirir o seu estatuto artístico.
Estava aberto o caminho da abstração. Também iniciado no século XIX, estão às discussões sobre a relação entre a imagem e o seu objeto até chegarmos ao século XX, momento da impossibilidade da representação do mundo, como escreveu G. Lukács. Aí começava a interpretação de que todas as artes têm como base a abstração.
Certamente foram os tratados teóricos, como o de W. Worringer, Abstração e Empatia (1908) que estão na origem da abstração desenvolvida por W. Kandinsky desde 1910, mas a sua curiosidade pela ciência o levou a um interesse pelas formas microscópicas, as formas naturais, as bactérias e os pequenos organismos, o que pode ser considerado como outra fonte da sua abstração.
O pintor tcheco F. Kupka (1871–1957) foi um pioneiro em expor imagens totalmente abstratas. Profundamente interessado pelo pensamento científico e filosófico de sua época, se interessou pela visão microscópica e macroscópica da realidade, embutindo nela a sua experiência mística – o microscópio e o telescópio eram também seus instrumentos para descobrir a verdade universal oculta em todos os seres e objetos.
Arte é construção do olhar, não é um achado ou uma descoberta. A cada momento aprendemos a ver o mundo do modo como ele se apresenta a nós naquele período. A arte moderna tende a literalidade, é o próprio dado da experiência do artista e, nela, a criação da fotografia, teve um papel extraordinário. Fragmentou a nossa visão de mundo e nos deixou claro que não vemos as coisas na sua totalidade, mas a vemos em parte numa relação com o todo. A fotografia segmenta um contínuo que a pintura acreditava poder representar. O olhar fotográfico é um corte que se faz da natureza ou do objeto nesse contínuo, não é analogia, logo não é verdadeira, é vestígio, é criação, é construção.
O que é abstração para Mariana Canet? É esta visão do real através do corte feito pelo enquadramento da objetiva dos mais diversos materiais, o que lhe interessa e que ela apresenta neste livro.
Faz lembrar aqui a admirável cena do filme do Michelangelo Antonioni, inspirado pelo texto de Julio Cortázar As babas do diabo, quando o fotógrafo Thomas (David Hemmings), vai ampliando ao máximo a fotografia da paisagem de um parque até atingir a sua abstração (blow up), no entanto o objeto que ele procurava continuava lá, era concreto.
A macro fotografia nos conduz a este olhar, ver as ranhuras, as fissuras, as quebras do material, o liso e o estriado nos seus detalhes, seja da madeira, do metal, da pedra ou do tecido. Ou como nos explica Suzan Sontag “a beleza da porta rachada e descascada, o caráter pitoresco da desordem, a força do ângulo estranho e do detalhe significativo, a poesia do avesso. [...] - a beleza não é inerente a nada; deve ser encontrada por outro modo de ver – a fotografia significa: anotar potencialmente tudo no mundo, de todos os ângulos possíveis.” (Sobre a fotografia)
É a estetização da realidade, do objeto reconhecível ou irreconhecível, e nos ensina a ver o detalhe banal, comum e belo que está a nossa volta. Em todas as fotos é evidente o sentido pictórico quando Mariana trabalha com a cor, sólida ou fluida, explorando os efeitos cromáticos.
O primeiro conjunto de fotos valoriza o olhar plástico, a imagem e a sua moldura, que ela denominou de “Abstrato – limite do concreto”, as fotos podem ser detalhes de detritos, de lixos ou de material descartado. É material, é real, é concreto. “O concreto levado ao mínimo precisa ser reconhecido, na abstração, como o real mais expressivo” é o que ensina W. Kandinsky.
Trinta anos após ter aberto o debate sobre a abstração, Kandinsky, ainda em torno da infindável discussão sobre a força do que ele chamara de pintura abstrata (ou não figurativa), dirá que preferirá chamá-la de “concreta”. Mariana, neste livro, reabre a discussão - são estas fotos abstratas ou concretas?
O segundo capítulo é a abstração do “Céu de pedra”, o ar e a terra, novamente o concreto e o fluído, o misterioso. A “Chuva de estrelas”, o vazio do espaço sideral na sua concentração de azul; destaca a transformação da matéria através da inversão da forma ou da cor e permanece na abstração da matéria.
Falando sobre a Comunicação não verbal do homem, E. Gombrich explica que “a arte não começa observando a realidade e tentando reproduzi-la, parte construindo ‘padrões mínimos’ que gradualmente são modificados com base na reação do espectador para se ‘tornar compatível’ com a impressão desejada.” (“Azione ed espressione nell’arte occidentale”)
Voltemos à Kandinsky: “O valor espiritual está então à procura de uma materialização. [...] Eis o elemento positivo, criador. Eis o bem. O raio branco que fecunda. Esse raio conduz à evolução, à elevação; por trás da matéria, no seio da matéria que oculta o espírito criador.” (“Sobre a questão da forma”)
Nada á mais abstrato do que o branco, síntese de todas as cores. É a poesia no seu estado de qualidade, origem de tudo, que encontramos nesta terceira parte do livro.
O conhecimento trazido pelos novos mecanismos contemporâneos nos conduziu a novas maneiras de ver o que existe, a natureza e a vida e faz com que a noção de abstrato que tínhamos vá se ampliando e movendo-se, mas também criando novos mitos e fantasias.
Outro pintor, também precursor da abstração, Paulo Klee (amigo de Kandinsky), ao se referir às imagens microscópicas fez a seguinte reflexão: “Presunçoso será o artista que logo se detém em alguma parte, imóvel. Eleitos serão os artistas que tentam atingir desde já o ponto mais próximo a esse poço secreto onde a lei original alimenta todos os processos de evolução.” (La pensée créatrice)
Este mundo microscópico ou macroscópico nos revela um mundo oculto e fascinante, se ele provocou os pintores modernos exigindo uma resposta pictórica pela importância que fotografia adquiria naquele momento, foram os fotógrafos que acharam a solução para o problema levantado por Walter Benjamin, de como reproduzir a obra de arte “na era da sua reprodutibilidade técnica”. Régis Debray na sua história da imagem diz que: “Uma estátua impressa em papel deixa de ser realmente uma estátua, um quadro deixa de ser verdadeiramente um quadro, mas uma foto reproduzida continua sendo uma foto [...] A impressão de um texto manuscrito não lhe altera a substância. A de uma obra plástica, sim. Não é a pintura, mas a foto que encontrou na reprodução impressa seu pleno desabrochamento.” (Vida e Morte da Imagem)
O que Mariana Canet nos oferece com este livro é que possamos satisfazer a nossa curiosidade de penetrar neste mundo que é particular do artista, ela nos ensina a olhar os detalhes banais à nossa volta e descobrir neles a beleza maravilhosa que existe, por exemplo, em um muro que perdeu parte de seu reboco, deixando visível as suas entranhas.
Fernando A. F. Bini
Professor e Crítico de Arte