Reflexos

     Mariana Canet é fotógrafa, apaixonada pelas imagens que congelam o tempo através de um obturador. Ela tem consciência que seu trabalho quer conquistar o observador criando nele a necessidade da reflexão, pois foi a invenção da fotografia que alterou a própria natureza da arte, reconfigurando a sua noção.
     "Reflexos" é uma exposição que quer absorver os espectadores pela imagem. A história da arte moderna nos conduziu a um aprendizado do olhar. Foi Claude Monet quem nos fez ver os reflexos, e as cores passaram a ser vistas como elas sempre foram, vibração de luz. Paul Cézanne, por sua vez, queria algo mais sólido e durável: captar a emoção, o eterno. Monet é o tempo no seu instante, os efeitos de luz: Cézanne é a realidade tomada na abstração, a natureza pensada. Captar rapidamente o silêncio, a calma da paisagem, dos efeitos dos raios de sol e os seus reflexos na água. Nos ensinaram a contemplar.
     Mariana, como eles antes dela, quer captar a luz no instante à beira da água, mas "não se sonha à beira da água sem se formular uma dialética do reflexo e da profundeza", nos adverte Gaston Bachelard. O fundo e a superfície, e é o fundo que tem para o artista as maiores surpresas, guardam sempre um mistério. O movimento da água distorce os reflexos coloridos nestes instantes da natureza e a fotografia, que é a representação destas ausências, torna presente aquilo que não está mais lá, a fluidez das coisas que Monet nos ensinou a olhar. Assim a artista, com as imagens captadas pela sua objetiva, duplica pelos espelhos, estimula a imersão do espectador nas formas e nas cores.

Fernando A. F. Bini

Curador e Crítico de Arte